Muitas vezes me lembro de um episódio lindo a que assisti, que jamais esquecerei...contei-o a poucas pessoas porque não é tema que se insira assim nas conversas banais do dia-a-dia, pois para mim aquilo foi algo de transcendentee até indizível. Mas vou partilhar convosco e tentar explicar o inexplicável...Tinha ido assistir a uma palestra sobre a poesia de Ary dos Santos, a sala era minúscula mas estava cheia, estavam presentes pelo menos três dezenas de pessoas, no palco estavam algumas figuras conhecidas, uma delas era Odete Santos, que recitou um poema de forma extraordinária e arrepiante. A páginas tantas, a coordenadora, que era professora na escola onde decorria a palestra, chamou um sr, que infelizmente não me recordo o nome, para que fosse recitar um dos poemas de Ary dos Santos, esse sr., ia acompanhado da sua esposa, que se encontrava sentada em frente dele....o sr. dirigiu-se ao microfone e olhando os rostos dos que ali se encontravam recitou, também brilhantemente o poema...a sala aplaudiu, o sr. agradeceu e começou a dirigir-se para o seu lugar....sem mais nada, sem uma única palavra, sem sequer olhar para a sua esposa colocou-lhe a mão no ombro, ela, sem se voltar e com os olhos fixos em nada, pôs a sua mão sobre a dele e assim...sem se olharem, ambos sorriram...
Eu fiquei estarrecida com o que tinha visto, revivi a cena lentamente, reconstruí tudo na minha mente...nunca mais vi nada de comparável com aquela cena. Imaginei toda a cumplicidade, as conversas no sofá até amanhecer, as discussões, a vida inteira em comum, um mundo inabalável entre aquele tocar breve, vi anos de compreensão, de paciência, mas acima de tudo vi um amor perene e inexorável...vi algo de único que os beijos libidinosos, os amassos e apalpões fugidios que se vão vendo hoje pela rua jamais conseguirão alcançar...e só penso que também quero algo assim para mim, um amor sem ser lamechas e figurativo, sem flores e alianças, sem casamentos e luas de mel, sem beijos lânguidos defronte de quem vai passando...um amor poético, que comece e acabe no entrelaçar de duas mãos...

1 Gritos Mudos:
Ser assim, entregar-se assim, amar assim...não está ao alcance de quem pensa que basta dizer um AMO-TE, e tudo fica bem, como se tudo girasse em torno de palavras, de meras palavras que por vezes nos sufocam de tanto quererem sair e ser ditas...A causa para tanta "asfixia" é contornada com simples gestos, toques, e profundidades superficiais de dois olhares distantes que se encontram num ponto infinito, e se juntam e aproximam como se não houvesse percurso a percorrer, suaves cheiros que nos alimentam a alma, e ouvirmos tudo o que quem está a nossa frente diz, sem se quer ter sido movimentado um lábio..AMAR AMAR!
Beijo Princesa
LY
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