Valéria viajava até à aldeia a nove horas de caminho...o comboio era lento, vagaroso, caminhava devagar - e o pensamento voava célere - deu tempo suficiente para fixar o nome de cada terra e o que nela despertava a atenção. Nada de mais, árvores outonais em tons de castanho e vermelho, espécies que por ali iam passando, o quadro bucólico que habitua a vista de quem caminha para as terras interiores...- A menina está bem? - uma velhota metida no seu xaile azul, espreitava por cima dos óculos com um ar maternal de quem já tinha os filhos criados e vinha de visita...
Valéria respirava com dificuldade, meio deitada no banco com a espuma já gasta. Não olhava a senhora, perdera-se em pensamentos vãos ao olhar pela janela embaciada...
- Menina...sente-se bem? Ai valha-me Deus, está com um ar tão abatido!
Ela girou a cabeça devagar, olhando a figura, demorada. "Que enfado...chegar à velhice, arrastar-me por aí como uma lesma, largando atrás de mim a peçonha, a desgraça do que já vivi, arrastando comigo a morte dos outros, as lágrimas...a espera de morrer condignamente no meu leito, sem que nada me avise, sem que nada me diga que é agora...que triste desgraça a de ter nascido..." - a mente de Valéria voava para o nunca mais, para o que nunca deveria ter sido, para o que não era, mas que era sim, pela força de o pensar.
- Menina...
- Não tens vergonha?!
O rosto pálido de Valéria ficara vermelho, roxo, as lágrimas começavam a querer cair.
- Menina?
- Responde! Velha decrepita, vens aí enrolada nesse manto como quem cobre o opróbrio, como quem se esconde da ignomínia, tiveste medo não foi? Tiveste medo quando viste que não havia volta a dar...e depois...depois vieste por aí fornicando e parindo para fingires que existias. É mentira!!! Não existes, não está aqui nada!
Diz-me lá, o que pensas que vais entregar à morte? Pensas que ela vai estar para te aturar com os teus filhos, os teus netos e os teus folares à moda da terra? Pensas que por teres fugido para a capital, agora te recebem de braços abertos?
És um emplastro, és o rosto podre da sociedade, és o ex libris da vergonha, és tu. És tu que me persegues, com esse teu ar de condoída com o meu infortúnio, com esse ar resignado de quem acha que já se entregou por completo à vida, que se acha cumprida. Pois fica agora a saber, que só te entregas por completo à vida quando te jogarem à terra e aos bichos.
Somos estrume...tu é que pensas que não e então vais-te ao cabeleireiro, arranjas-te e embelezas-te, enquanto definhas por dentro, apodreces e morres, mas ao menos estás cheia de lacas e pulseiras e vernizes, perfumes e enfeites!! Pois olha...ela vai ficar-te com tudo e depois eu rir-me-ei até que caia sem forças para mais...
Oiçam todos!!! Somos todos merda!
Em redor, o olhar estarrecido de quem, por infelicidade se cruzara com Valéria, de quem tinha ousado entrar naquele comboio, para o retiro outonal da pacífica aldeia. As suas vidas jamais seriam as mesmas, num escasso período de tempo, aquela rapariga de longos cabelos negros, de olhar vivo de raiva e de rosto macilento, revelara-lhes uma parte da verdade absoluta - que é isto de verdade absoluta? - mas sim, estavam ali expostos, ela via-os a todos por dentro.
Valéria fitava-os um a um...e logo o sangue, o sabor agridoce do sangue rubro inundava-lhes a boca, querendo jorrar como água purificante de uma nascente no íntimo de cada um...e assim, cada um dos que viajavam naquela carruagem, decidiram encurtar a sua viagem...despojando-se de tudo quanto levavam consigo, de tudo quanto humanamente conseguiam...e assim, nus, expostos à verdade das coisas, ao etéreo, ao nu do mundo, ao vento e à chuva, às folhas outonais, pularam do comboio em andamento sob o olhar quieto e sossegado de Valéria que se sentou quietamente no seu lugar desgastado e húmido da água que entrava pelas janelas, olhando para os corpos espalhados no caminho...
"Cambada de fantoches" - pensava enquanto a máquina seguia o seu andar doentio...

1 Gritos Mudos:
excelente.adorei este mini conto.
a perfida valéria....
espectacular!!!
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