
Apagaram as luzes!...Silêncio...as vozes silenciaram-se, apertaram-se as mãos, susteve-se a respiração. O que vinha a seguir?
Olhávamo-nos no escuro ainda que não conseguíssemos distinguir o que quer que fosse, mas os olhos brilhavam, procurando conforto no pânico uns dos outros. O que vinha a seguir?
"Vamos morrer, oh Deus, vamos todos morrer..."
"Psst cala-te, silêncio, não digas nada, deixa-me ouvir."
"Vamos morrer, eu sei!"
"Está quieta, não te movas, não fales."
O calor apertava dentro do cubículo, o ofegar de cada um de nós dizia contudo que estávamos vivos. Cada vez mais juntos, cada vez mais perto...
O silêncio banhara-nos de novo, o medo insustentável pesava-nos longamente no peito. O que estariam eles a pensar? A Valéria, o Tiago, a Samara, o Dário.... o que pensam? Estão aí?
"Estão aí?"
"Claro que estamos! Agora deixa ouvir..."
"Sim mas estão aí? Estão aqui todos? Estamos inteiros? Estamos vivos?"
"Cala-te!! Deixa ouvir!!"
Lá fora nada, o silêncio apenas. Todos queríamos ouvir algo, um som que nos indicasse onde estávamos, que nos desse pistas do que pretendiam fazer...
Mas de repente, gelaram-me as mãos, o coração parou de bater, lembrei-me de tudo...de tudo o que tinha deixado para trás, de tudo o que não fiz e desejava ter feito, de tudo o que fiz e me arrependi depois. Lembrei-me das lágrimas, dos sorrisos, das paixões, do amor, da tristeza, dos momentos de felicidade. Lembrei-me das pessoas, das vozes, dos sons. Lembrei-me do sol, do mar e da lua. Lembrei-me do verde do campo e do orvalho pela manhã. Lembrei-me da chuva e do cheiro a terra molhada. Lembrei-me dos livros e do seu cheiro a novo, quando ainda não foram desfolhados. Lembrei-me das folhas de Outono e do castanho agradável que se vê nas ruas quando elas vão caindo...lembrei-me do som que fazem por debaixo dos nossos pés. Lembrei-me da minha mãe a fazer o pequeno almoço e como era agradável acordar ao som dos seus passos. Lembrei-me dos meus irmãos a brincarem pela casa, dos seus sorrisos...
Lembrei-me de tudo, de tudo o que me foi passando.
E percebi...
"Valéria?"
"Diz." - a voz doce, pausada e quase inaudível de Valéria, confortava sempre em alturas de pânico, mas agora não, agora não era preciso.
"Tens medo?"
"Sim, muito! E tu?"
"Calem-se! Queremos ouvir!"
"Eu não!"
"Não tens medo?"
"Não."
"Então porque tremes?"
"Tenho frio."
"Sim...pois está, é estranho."
"Está frio...tenho tanto frio."
"Mas vocês importam-se de me deixar ouvir?"
De súbito alguém abriu a porta, surgiu uma mulher de longos cabelos ruivos, olhos castanhos quase sangrentos, um longo vestido preto...em contraluz toda aquela aparência ofuscou-nos a vista. Levemente, ergueu o braço e apontou para mim, ergui-me devagar e caminhei para ela.
"Onde vais? Não vás com ela!!Não sabes quem é, o que nos querem! Volta para aqui vamos aproveitar para fugir!"
"Não percebes Tiago?...Nós já estamos mortos..."
Caminhei e fui com ela, deixando os olhares de pânico e pergunta para trás...
Olhávamo-nos no escuro ainda que não conseguíssemos distinguir o que quer que fosse, mas os olhos brilhavam, procurando conforto no pânico uns dos outros. O que vinha a seguir?
"Vamos morrer, oh Deus, vamos todos morrer..."
"Psst cala-te, silêncio, não digas nada, deixa-me ouvir."
"Vamos morrer, eu sei!"
"Está quieta, não te movas, não fales."
O calor apertava dentro do cubículo, o ofegar de cada um de nós dizia contudo que estávamos vivos. Cada vez mais juntos, cada vez mais perto...
O silêncio banhara-nos de novo, o medo insustentável pesava-nos longamente no peito. O que estariam eles a pensar? A Valéria, o Tiago, a Samara, o Dário.... o que pensam? Estão aí?
"Estão aí?"
"Claro que estamos! Agora deixa ouvir..."
"Sim mas estão aí? Estão aqui todos? Estamos inteiros? Estamos vivos?"
"Cala-te!! Deixa ouvir!!"
Lá fora nada, o silêncio apenas. Todos queríamos ouvir algo, um som que nos indicasse onde estávamos, que nos desse pistas do que pretendiam fazer...
Mas de repente, gelaram-me as mãos, o coração parou de bater, lembrei-me de tudo...de tudo o que tinha deixado para trás, de tudo o que não fiz e desejava ter feito, de tudo o que fiz e me arrependi depois. Lembrei-me das lágrimas, dos sorrisos, das paixões, do amor, da tristeza, dos momentos de felicidade. Lembrei-me das pessoas, das vozes, dos sons. Lembrei-me do sol, do mar e da lua. Lembrei-me do verde do campo e do orvalho pela manhã. Lembrei-me da chuva e do cheiro a terra molhada. Lembrei-me dos livros e do seu cheiro a novo, quando ainda não foram desfolhados. Lembrei-me das folhas de Outono e do castanho agradável que se vê nas ruas quando elas vão caindo...lembrei-me do som que fazem por debaixo dos nossos pés. Lembrei-me da minha mãe a fazer o pequeno almoço e como era agradável acordar ao som dos seus passos. Lembrei-me dos meus irmãos a brincarem pela casa, dos seus sorrisos...
Lembrei-me de tudo, de tudo o que me foi passando.
E percebi...
"Valéria?"
"Diz." - a voz doce, pausada e quase inaudível de Valéria, confortava sempre em alturas de pânico, mas agora não, agora não era preciso.
"Tens medo?"
"Sim, muito! E tu?"
"Calem-se! Queremos ouvir!"
"Eu não!"
"Não tens medo?"
"Não."
"Então porque tremes?"
"Tenho frio."
"Sim...pois está, é estranho."
"Está frio...tenho tanto frio."
"Mas vocês importam-se de me deixar ouvir?"
De súbito alguém abriu a porta, surgiu uma mulher de longos cabelos ruivos, olhos castanhos quase sangrentos, um longo vestido preto...em contraluz toda aquela aparência ofuscou-nos a vista. Levemente, ergueu o braço e apontou para mim, ergui-me devagar e caminhei para ela.
"Onde vais? Não vás com ela!!Não sabes quem é, o que nos querem! Volta para aqui vamos aproveitar para fugir!"
"Não percebes Tiago?...Nós já estamos mortos..."
Caminhei e fui com ela, deixando os olhares de pânico e pergunta para trás...

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